Oi família! Como estão todos por aí?
Eu tô ótima por aqui, acho que nas duas primeiras semanas eu estava estranhando bastante, em primeiro lugar a comida. É absurdo como o americano come mal, e eu sofri bastante a diferença, qualquer coisa por mínima que fosse que eu ingerisse, já me sentia estufada, enjoada, o irmão do Joe que passou 6 meses na África também sentiu a mesma coisa ao voltar às comidas industrializadas, chegamos aqui na mesma semana.
Os sucos vêm escrito "100% juice", e ainda falando que são laranjas do Brasil. Pode até ter 100% de suco lá, mas a quantidade de conservantes é o suficiente para você tê-lo aberto na sua geladeira por 3 semanas sem estragar (o suco que eu comprava no Hortifruti tinha que ser bebido diariamente, no dia seguinte a laranja já estava com aquele gostinho de passada).
O almoço não é almoço, é sanduíche. O que contribuiu muito para meus enjôos e fraquezas, é impressionante como alguns dias sem comer de verdade o fazem sentir tão fraco, fiquei me sentindo sem energia, com sono o dia todo, e a primeira vez que achei um lugar com arroz e feijão comi como um mendigo da etiópia, avancei num puta prato de pedreiro como se fizessem semanas que eu não comesse nada. Por outro lado, o café da manhã come-se muito. Tem muitas nojeiras e frituras, mas tem panquecas deliciosas com maple (muito parecido com o melado), waffles, torradas com manteiga e ovo, batatas cozidas (estranhei mas adorei), panqueca que parece com um crepe recheado de frutas... Isso eu vou levar pra vida, comidas gostosas pela manhã! O café da manhã lota os restaurantes aqui, que ficam com fila de espera, enquanto no almoço ficam vazios. A janta é deliciosa também, eles usam bastante aquela grelha elétrica ou à gás, o que dá um sabor incrível à comida. Muito frango grelhado, brócolis (sim mãe, o brócolis aqui é delicioso e me lembra couve flor cozida), milho, batata assada com casca, berinjela na grelha, tudo uma delícia! Comi muito bem esses dias na casa do Joe, a mãe dele cozinha magnificamente bem e tive a oportunidade de comer o melhor salmão da minha vida. Grelhado, tostadinho de leve e suculento por dentro. Delicioso! Vai a dica pra mamãe, Tia Edma e Tia Lucinha, que amam cozinhar e talvez não tenham feito salmão grelhado.
Eu poderia ficar horas discorrendo sobre as diferenças de como se comem por aqui, acho impossível mesmo você não ser gordo, nada é natural, e um copo de suco de fruta custa 6 dolares, uma limonada custa 4!! (e eu que costumava pagar 50 centavos na limonada no Centro do Rio, me recuso sequer a provar uma limonada por esse valor).
Outra coisa que sinto muito a diferença é nas pessoas, como as pessoas são mais frias, individualistas, cada um no seu próprio mundo. Esquisito porque no Brasil vivemos muito em condomínios, com casas com muros altos, e ninguém aqui tem muros, em lugar nenhum. Não há paredes entre as pessoas ou porteiros, e todos vivem numa base de confiança mútua, você olha pra casa e não vê um muro, e isso é lindo, porém ainda não consegui entender o por quê de um lado as pessoas serem frias e com seus lares expostos, e de outro, as pessoas serem mais abertas, e escondidas em casa.
As pessoas são educadíssimas, e isso é um ponto super alto aqui, os serviços funcionam muito bem, todo mundo o respeita (acho que tem um pouco a ver com a frieza também, um não ousa invadir o espaço do outro), mas você não sente o coração sabe? É diferente.
Você bota o pé na rua e todo mundo pára imediatamente, mas você abre um sorriso para agradecer e recebe de volta uma cara de sem paciência, da pessoa puta de ter que parar, de estar o fazendo somente porque é Lei (e as leis felizmente funcionam nesse lugar). Pedir informação na rua parece uma afronta às vezes, as pessoas parecem que têm medo de interagir, às vezes te olham nos olhos e fingem que não o viram, a vontade que dá é de dar um soco na cara.
Acho que todo mundo adora falar mal do Brasil gratuito, acho que aqueles que falam mal do Brasil na verdade nunca ficaram mais do que 10 dias convivendo em outra sociedade para dar o valor que nosso país merece. Me sinto muito orgulhosa, mesmo com tantos problemas, de ser de um país em que se aprende a lidar com o coração. Todo mundo fica feliz quando ganha um beijo ou abraço meu aqui, se assustam no início, mas me recuso a simplesmente estender uma mão ao ser apresentada por alguém, aprendi a dar calor, a dar carinho e é isso que eu faço, e fico feliz de ver a reação das pessoas, acho que sentem falta disso. Na verdade não é só questão de me recusar a me sentir fria (às vezes eu estico a mão sim), mas é mais forte do que eu ser apresentada e tocar na pessoa com mais afeto, sei lá, esquisito mesmo, mas pode ser só eu. Outro dia cortei meu cabelo e agradeci a mulher muito, dei um abraço, um beijo e uma gorjeta. Ela ficou maravilhada, falando que há 20 anos trabalha nos Estados Unidos, mas nunca as pessoas agradecem com um beijo, e ela, como grega, sentia falta disso.
Parece que o lugar que eu moro é um monstro da maneira que estou falando, também não é assim. Embora tenha muitos problemas fico feliz de estar num lugar em que eu sei que posso usar meu telefone na rua, que posso ir comprar um biscoito às duas da manhã sem ser abordada por ninguém, que os homens por mais que te achem bonita não te olham com aquele olhar como se você fosse um objeto ou uma carne andando, e que você tem voz.
Na minha primeira semana aqui a Gaby, minha co-habitante, tinha esquecido de pagar a internet e ela foi cortada. No tempo de eu ter ido escovar os dentes e fazer xixi, ela ligou para a operadora, pagou e a internet voltou. Eu não podia acreditar que isso estava acontecendo, perguntei mil vezes, pois achei que eu é quem estava entendendo errado. Não tinha que ligar pra NET, gritar, esperar três dias, ligar de novo e pedir para atualizarem o sistema porque você já pagou? Em 5 minutos eu tinha internet de volta mesmo? Incrível, liguei pra minha mãe na hora, como quem tinha visto um Tiranossauro na minha frente falando "mãe, você não vai acreditar o que acabou de acontecer!"
Outra coisa muito boa é que você realmente sente a democracia mais próxima. Você sente que as coisas são mais acessíveis a todos, a cada compra que você faz, vem escrito o quanto você está pagando de imposto, e tudo é muito barato em relação ao que estamos acostumados. Acho que em pouco tempo minha visão de barato e justo mudou radicalmente, o que fazem conosco no Brasil é tão vergonhoso que talvez seja muito mais fácil mesmo o Governo manter a população com uma educação ridícula, para nem conseguirem pensar nas diferenças ou quererem reclamar, todo mundo vaquinha de presépio é mais fácil de lidar.
Sinto um pouco de paranóia nas pessoas, não todo mundo, mas não é culpa delas, a sociedade e as leis as fizeram assim. As leis funcionam muito bem, mas há leis demais por aqui. Bares só funcionam até às 2, não pode beber na rua, não pode estar bêbado na rua, não pode ir à praia à noite, não pode ficar muito tempo parado na frente da casa de ninguém, não pode botar moedas no parquímetro alheio. Qualquer coisa pode dar em prisão por aqui. Outro dia bebi com Joe na casa dele e saímos para dar uma volta na vizinhança, parávamos a cada 10 minutos em uma rua diferente, sentados na calçada conversando, pois se alguém achasse esquisito duas pessoas à noite na frente de suas casas e chamasse a polícia, teríamos uma chatice pra aguentar. No meu segundo dia por aqui, quando meu estômago ainda estava estranhíssimo, e eu saí à noite para um bar, e bebemos por lá. Fui ao banheiro e nunca vomitei tanto na vida (só vomitei por bebida 3 vezes, acho q era mistura de àlcool + estômago fudido), a mulher veio e falou que por lei ela tinha que chamar a ambulância para mim, minha amiga ficou preocupada e fomos para casa, para que eu pudesse vomitar em paz, sem médicos ou policiais tomando conta. Isso é bem chato.
Ontem voltando da farmácia minha sacola com um pacote de biscoito imenso (sim, tudo é absurdamente imenso aqui) arrebentou. Vim pra casa segurando ele na mão. Horas depois senti falta do meu celular, e logo pensei "droga, tava na sacola..", sem muita esperança como uma boa moradora do Rio, abri a porta às 11h30 da noite e fui me encaminhando pelas ruas, à procura dele. Eu moro numa área bem movimentada e com centenas de bares italianos, um lugar agradável para se viver, daqueles que a qualquer hora que você saia na rua, tem algum movimento, por menor que seja (até às 2 da manha na verdade, por lei). Qual não foi minha surpresa ao ver meu telefone ali, quietinho e espatifado no chão, sozinho. Acho que essa mesma cena infelizmente não poderia ser reproduzida aonde eu morava. Se na Hilário de Gouveia, voltando do Mc Donalds eu deixasse um telefone espatifado no chão sozinho, ainda que eu morasse na rua da delegacia, com certeza eu poderia esquecer e desistir de procurá-lo. Isso é um ponto ótimo aqui!
Quando eu disse que a democracia é mais próxima, esqueci de exemplificar. Aqui o Joe trabalha como pintor, pintor de casa mesmo, trabalha com alguns pedreiros brasileiros até. Todo mundo tem que trabalhar aqui, os pais não pagam as coisas pros filhos desde o colégio e eles têm que se virar, é tipo " vai cortar grama do vizinho, se vira mas nao fica em casa esperando que eu faça nada por você". Parece duro mas acho muito interessante, desde cedo te dá noção do quanto vale o dinheiro, de que você é responsável e seus pais não são babás. E ao mesmo tempo, as pessoas recebem por hora, e são pagas semanalmente. Acho mais interessante dessa forma, pois você sabe o quanto vale uma hora sentado lá, ou fazendo o que você está fazendo, você cria realmente a noção de "tempo é dinheiro", e ao final da semana, sua conta que estava zerada já tem um valor que o permite sentar num barzinho com os amigos e beber uma cerveja. Você sente o fruto do seu trabalho mais próximo, e ao mesmo tempo, ganha-se mais, e paga-se menor por melhor qualidade. É absurdo! Eu não trouxe toalha porque não queria ocupar minha mala, e fui numa loja aqui perto comprar uma barata qualquer. Uma barata nas Lojas Americanas de qualidade duvidosa custa quanto? Uns R$25 reais? Me lembro que num carnaval eu viajei e esqueci a toalha. Paguei por uma que virou pano de chão de tão ruim uns R$18 reais, era dessas que mais parecem que espalham a água no corpo do que secam sabe? Então deve ser por ai o valor mais ou menos, mas estou divagando.
Como eu dizia, fui na tal loja comprar uma toalha, e achei uma muito boa por R$6,99, escolhi a cor e fui ao caixa. Já seria incrível ter uma toalha de qualidade muito boa por esse preço né? Mais incrível ainda o fato de ela ser da Ralph Lauren. Uma toalha qualquer dessa marca custa 90 reais no Mercado Livre, onde as pessoas vendem as coisas por muito mais barato, então nem imagino o valor original numa loja.
Não que eu esteja falando que marca seja tudo nessa vida, mas uma pessoa mais humilde quer se sentir igual ao outro no Brasil e em qualquer lugar, quer saber que pode comprar a mesma coisa, e aqui isso é muito mais próximo, muito mais possível. Um vestido lindo na Forever 21 (uma especie de Farm daqui) custa R$20 dólares, enquanto se você não estiver preparada a desembolsar no mínimo R$170 por aí, não vai ter algo bacana, de qualidade. Não estou exagerando mesmo, qualquer menina aqui que trabalhe uma hora como babysitter, por mais do gueto (as favelas daqui) que sejam, podem se sentir felizes vendo o fruto do seu trabalho e usar um vestido da Forever 21, e ficar igualzinha à burguesinha que mora na Zona Sul daqui. Claro que a burguesia vai poder comprar coisas mais caras também, mas mesmo assim, até as marcas mais caras são muito mais acessíveis para quem quiser, e assim as pessoas se sentem mais iguais às outras, as diferenças sociais são menores, o negro daqui pode usar Nike, Adidas e se sentir feliz, e todos nós sabemos o quanto é importante você não se sentir inferior, que pode menos do que alguém, ainda que isso seja representado por um cavalinho ou jacaré desenhado numa camisa.
Não sei, balanceando, no final todos os lugares têm muitos prós e contras. Embora eu ame minhas comidas, meu clima e meu povo, é incrível estar num lugar como este, que por mais que seja bobo falar dos preços das coisas, no final nós trabalhamos para nos dar conforto, qualidade de vida pra nossa família, e isso é muito mais fácil por aqui.
Já terminando o e-mail, lembrei de um episódio na semana passada. A prima de um amigo me chamou para ir andar numa trilha com ela, e lá fui eu. Então estou eu andando numa trilha, onde a cada 10 ou 15 minutos você passa por alguém vindo na direção contrária. O que acontece normalmente por ai numa situação dessas? Você tá sozinho, de cara com alguém que está voltando do caminho que você está começando a fazer, então o normal é comentar qualquer coisa, um cumprimento, sei lá, esquisito não falar nada né? Tipo aquelas situações chatas de elevador. E lá vou eu, cumprimentando todo mundo, dando "hi", sorrisos e comentários bobos sobre a trilha, aquelas coisas passageiras né? Essa menina que tava comigo começou a falar para eu parar de fazer isso, que as pessoas não gostavam de interagir, e um cachorro fofo veio correndo na minha direção, e eu estiquei a mão e ela disse "dont do it!!", indicando para que eu não fizesse carinho. E comentei com Joe o ocorrido. Quando comecei a pensar, as pessoas realmente se sentiam invadidas, as pessoas talvez não quisessem ser cumprimentadas mesmo, nem que ninguém tocasse no seu cachorro fofo. Será? Não quero me tornar uma pessoa fria aqui, e ouvi isso de pessoas queridas por aqui, para eu não deixar de ser eu, não deixar de continuar dando amor, que é assim que eu aprendi, assim que me faz bem, e amor nunca faz mal às pessoas. De repente eu só me adapto um pouco para não deixá-las assustadas com tanto sorriso... hahahah =)
Amo vocês!
Beijos saudosos!
Filha, você tem uma maneira muito interessante de se expressar. Muito bom ler as suas crônicas, as suas caminhadas, o seu dia a dia.
ResponderExcluirContinue neste caminho .... Está perfeito e delicioso ler o capítulo de cada dia !